Mahmundi

convida Anelis Assumpção

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Mahmundi

Na carteira de identidade, ela é Marcela Vale. Carioca de Marechal Hermes, cresceu numa família evangélica, cantando louvores, longe da música dita secular, ou seja, fora da temática religiosa. No máximo, conhecia o que tocava nas rádios das Kombis que transitavam pelo subúrbio ou nas trilhas de novelas. Até que entrou em cena a persona que mudaria sua vida: Mahmundi. Como um portal que a levava a outras dimensões, o MySpace - a rede social mais popular do mundo na década passada (pois é, a Internet já tem um passado) - abriu sua cabeça. E seus ouvidos. Enfurnada em uma lan house, passou a ouvir tudo o que nunca havia escutado até então. Conheceu a canadense Avril Lavigne, que a levou até Alanis Morissette e a Patti Smith, apaixonou-se pelos ingleses do Oasis, encantou-se com os sons do Djavan. Aos 18 anos, gastava os finais de semana "viajando" pelo mundo. O mundo de Marcela. Mahmundi.

 

O tempo passou. Mahmundi foi ganhando voz, deixando Marcela resguardada. A antiga lan house foi trocada pelos palcos. Ou quase isso. Como técnica de som do emblemático Circo Voador, passou a ter outra vivência com esse universo. Atenta a tudo o que acontecia antes e durante os shows, nos bastidores ou em cena, percebeu que podia fazer daquela nova (e intensa) paixão algo mais. “Coloquei umas músicas no próprio MySpace e, de repente, tinha gente falando sobre mim em Montreaux, resenha sobre o trabalho no Japão. E eu tinha apenas a vontade de ter uma oportunidade, poder fazer alguma coisa", diz ela. E fez. Muita coisa.

 

Aos 31 anos, depois de dois EPs e um disco lançados de forma independente, todos muito bem recebidos, Mahmundi chega ao primeiro álbum por uma grande gravadora, a UNIVERSAL MUSIC. “Para Dias Ruins” é o título escolhido para dar início a essa nova etapa. Album Produzido por ela e pelo seu companheiro de show, o músico e produtor carioca Lux Ferreira.

 

“Qual é a Sua”, é o single que marca o lançamento. “Não me faça falar de nós / Eu não sei falar / Vou falar demais”, canta Mahmundi, sobre uma levada reggae. “Essa música fala de encontros, flertes. Daqueles momentos de decisão para um relacionamento, ‘vamos levar isso adiante?’, “vamos apostar nisso que a gente chama de amor?’”, explica a artista, enfatizando a questão que ronda o refrão da composição de Lou Caldeira e Castello Branco: “Qual é a sua?”. “A ideia é que ela fosse musicalmente tropical, romântica e com elementos de percussão, que reafirmam esse misto de sentimentos frescos que passam na nossa cabeça quando estamos à procura da pessoa que gostamos. Na vida real, na internet, no like...”.

 

Antes de se concretizar como álbum, “Para Dias Ruins” teve direito a aperitivos. Há exatamente um ano, Mahmundi lançou o single “Imagem”, presente – claro – no disco. Flertando com o charme, o delicioso ritmo que marcou a música brasileira nos anos 1990, a cantora avisava: “Esse é o tempo que quero com você / Me envolver, me imaginar / O que tenho sentido / Tanto pra te dizer / Me envolver, me imaginar”. Em maio, teve mais “um tanto pra nos dizer”, lançando outra faixa: "Tempo pra Amar", sua parceria com o compositor Carlinhos Rufino, uma balada com um recado direto: “Hoje eu só quero amar você / Nem preciso ligar a TV / Nosso amor é um romance / E o tempo é pro nosso querer”.

 

Quem já conhece o mundo de Marcela, sabe: uma faixa nunca é igual a outra. “Quis fazer um disco clássico, mas para cada música, pensamos numa roupagem diferente. Gosto de ser essa artista de álbum, contar essa história dessa maneira foi mais interessante”, avalia. “Para Dias Ruis” tem violão, piano e baixo acústico, mas nada é “limpinho” demais. Os reverbs, delays e efeitos de voz, que viraram uma característica de seu som, continuam lá. Como autora, Mahmundi revelou um lado mais doce e leve. “Comecei a trabalhar nesse repertório em 2016, quando estava passando uma temporada em São Paulo. Tem muitas coisas daquela época, de relacionamentos que vivi. E continuei a criar outras coisas já de volta ao Rio. Mas foi preciso que a gravadora me desse um prazo para entrega, caso contrário eu estaria lapidando ele até hoje”, diverte-se.

 

Apesar de falar de sentimento, a cantora não aponta um tema específico como fio condutor do disco. “Trato ele como uma playlist. uma playlist de músicas legais. Com as plataformas digitais, o comportamento mudou. Você está ouvindo um folk, depois escuta um samba. E eu comecei a achar que poderia fazer assim. Não sigo um repertório para obra. Quero que os ouvintes tenham opções” detalha ela, cuja sede de conhecimento formatou uma artista sem preconceitos. “Hoje em dia eu não tenho nenhuma amarra. Não há mais a imagem das pessoas  dizendo que é isso ou aquilo. Já me peguei tentando insistentemente estudando uma guitarra do Chimbinha, na época da Banda Calypso”, revela.

 

E a playlist começa com “Alegria”, que abre o álbum com uma letra cheia de amor pra dar: “Pelas ruas eu vou / Querendo a tradução do amor / Pra fazer da paz nossa canção”. Já em “Outono”, um piano conduz a melodia. “Não me diga que você se vai agora / Nesse dia tão bonito / Queria ficar mais um pouco contigo / Pelo menos uns 100 anos ou mais”, entoa. As duas músicas são compostas em parceria com Roberto Barrucho, amigo de longas datas de estúdios de música.

 

“Vibra” traz uma sonoridade retrô, que nos leva diretamente aos anos 1980. Letra de Mahmundi e do poeta Omar Salomão. “Somos mais bonitos celebrando o nascer do dia / Pra marcar o tempo que resta em nós / Todos os poemas vão lembrar você na vida / Pra marcar o tempo que vibra”, manda a letra. Em “As Voltas”, música composta em lançada pelo cantor carioca Qinho, o violão faz a cama, antecedendo a entrada de um delicado piano com acento jazzístico. “Volta pra mim / Volta pra sua / Volta pro teu / Pro teu lugar, aqui”, avisa, para na sequência reforçar: “Olha pro Sol / Olha pro meu olhar / Vê em mim / A tua casa, tua estrada”.

 

Tem até Afrobeat – à moda Mahmundi. “Felicidade vem de dentro pra fora / Rebate na gente / Gira em círculos, invade a sua porta”, canta ela em “Felicidade”, bem marcada e cheia de barulhinhos bons. E a festa termina com uma bossa nova. “Fiquei receosa a princípio, mas queria que as pessoas que não ouvem tanto a música brasileira, pudessem se interessar por algo mais organico. " Meu desejo é muito sobre compartilhar coisas que ouço e produzo”, conta. O resultado é “Eu Quero Ser o Mar”, música que poderia muito bem estar no repertório de Leila Pinheiro ou da saudosa Nara Leão. “Lá, aonde surge a onda / Pra recomeçar / Na profusão dos sentidos da vida da gente / Da vida do tempo da gente”, dizem os versos.

 

E o tempo continua a passar. Aquela moça que encontrou na internet o passaporte para um mundo novo tenta agora se adaptar a comportamentos propagados pela mesma rede. Ainda surpreende-se quando vê pessoas em seu próprio show acompanhando tudo através do celular.  “O cara está ali, mas prefere fazer uma live do que curtir. É muito louco”, atesta a cantora, que – desde o começo – faz questão de se envolver em cada etapa do trabalho. “Hoje eu vejo que foi uma maneira de me empoderar, dentro de um mercado bastante difícil. Por ser mulher, por ser negra, sempre ouvia um ‘porém’ a cada questionamento, que nada mais era que um preconceito velado. E eu tinha que defender minha cria. Hoje, estou mais abertas as possibilidades e estamos em tempos de mudanças. E isso é bom.''

 

E qual é a de Marcela, hoje em dia? “Eu já consigo entender a artista que sou, a artista que posso vir a ser. O tempo vai esclarecendo melhor. Foram anos de busca, de acúmulo de experiências. Chegar aos 30 anos também me ajudou a compreender melhor o mundo e a relação com as coisas”, conclui.  Como antídoto “Para Dias Ruins”, o som de Mahmundi é tiro certo.